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Suinocultura: Uma criação derivada das pesquisas


A notícia foi dada em junho. Oito plantas frigoríficas de Santa Catarina foram habilitadas para exportar carne suína para o Canadá. A celebração veio com ares de alívio ao setor que enfrenta dificuldades, em um estado que responde por 55,85% das exportações totais de carne suína do Brasil. A habilitação foi o fruto. O trabalho para colhê-lo começou muito antes. Para entender como chegamos até aqui, não basta olhar apenas para a negociação com os canadenses. Também é preciso olhar para trás.

 

Quando se criava porco...

Não é preciso ir muito longe para encontrar algum familiar ou conhecido capaz de recordar dos tempos em que os animais de consumo doméstico eram criados soltos. Eram os tempos antes das cercas, muito familiares às roças caboclas, quando as cercas não existiam e as divisas eram identificadas por marcos naturais ou artificiais, retocados todo ano. Nas terras de criar, os animais não somente eram criados soltos, como também viviam juntos em um grande espaço habitado pelo gado de uns e pelo porco de outros. Os cercados, criados por rachões de pinheiros ou por trincheiras, protegiam a roça de feijão, milho, abóbora e mandioca dos ataques dos animais, especialmente dos porcos.

Criar animais à solta era uma prática possível em espaços com baixa ocupação demográfica, especialmente, no caso da floresta do Meio-Oeste e Oeste catarinense, em porções onde a erva-mate era escassa. Sem conseguir obter renda com a exploração da erva-mate, a presença do porco se destacava como um ativo econômico para as famílias da região. Em termos ambientais, a criação do porco solto é vista como uma possível responsável pela conservação e /ou disseminação da vegetação florestal, embora pudesse competir com a fauna local por alimentos e espaço. Entretanto, por suas características alimentares, o porco encontrou fartura de alimentos na região, seja com frutos caídos, sementes, raízes, relva ou pequenos animais — uma vantagem da espécie sobre os herbívoros como bois, cavalos e mulas criados nas áreas de campo.

Com o ambiente favorável, rico em fonte de alimentos, as porcas geravam grandes ninhadas com mais de 10 filhotes. E sendo um animal de grande fertilidade e baixo custo produtivo, se tornou uma importante fonte de renda para as famílias que não dispunham grandes áreas de terra. Isso porque a natureza era extremamente favorável à criação, já que depois de comer as guavirovas da primavera, os porcos podiam comer o butiá e depois de fartavam com pinhão. Assim, um filhote nascido no inverno poderia completar um ano pesando de 80 a 100 quilos sem praticamente nenhuma despesa ao produto, a quem cabia "alçá-lo" e transportar até a cidade mais próxima para o abate.

Progressivamente, tendo em vista a comercialização, algumas famílias passaram a finalizar a engorda em mangueiras ou roças fechadas. Até os centros consumidores, ia-se a pé em um transporte de tropas. Mas o porco criado no mato não era dócil, pois nunca tinha tido contato com humanos. Logo, para facilitar o transporte, costumava-se costurar os olhos do animal ou pingar-lhes creolina, deixando-os completamente cegos, para que acompanhassem a tropa pelo faro e pelo som, sem risco de fuga.

Com o avanço do mercado, as técnicas foram aprimoradas. A alçada deu espaço à integração. As normas sanitárias foram modificadas. Novos estudos e pesquisas foram desenvolvidos. Pouco a pouco, o antigo porco criado solto no mato virou o suíno cor de rosa que conhecemos hoje.

 

A suinocultura como objeto da ciência

Se a ciência administrativa foi modificando o dia a dia das indústrias ao longo do século XX, pode-se dizer o mesmo sobre a agroindústria. A necessidade de melhorias impulsionou tanto os produtores como as nascentes agroindústrias da carne a procurar por diferenciais que se mostrariam vantajosos a longo prazo. Como representante dos produtores, a Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS) nasceu em 1959 para melhorar a qualidade dos rebanhos ao unir os interesses dos produtores e os da indústria.

De acordo com o Presidente, Losivanio Luiz de Lorenzi, a ACCS foi criada para nortear o melhoramento genético dos animais através da importação. No início, a associação criou exposições para estimular os proprietários das granjas de material genético a participar de uma competição saudável premiada com mais investimento na área. A estratégia contribuiu muito para o avanço do melhoramento genético na época. "Em 1974, o então Ministro da Agricultura Alysson Paulinelli visitou Concórdia e conheceu a estação de testes onde eram testados os animais para melhoramento genético e realizadas as pesquisas de conversão e ganho de peso diário. No momento, foi solicitado que houvesse uma área de pesquisa inteira dedicada para a suinocultura, o que foi aprovado e em menos de 15 dias foi construída a Embrapa Suínos. Quatro anos depois veio a Embrapa Aves", conta. Antes da criação da ACCS, o registro genealógico dos animais era coordenado pela Associação Brasileira de Criadores de Suínos. Porém, com a Associação ativa, coube a ela fazer esse registro importante para separar as matrizes comerciais das matrizes de alta genética até a instalação das empresas modernas que fazem esse tipo de trabalho.

Desde a organização da atividade nos modelos atuais, as necessidades da indústria, de entidades representativas, do Governo e dos produtores é o que orientam as pesquisas na suinocultura. Para Losivanio, o setor de Pesquisa e Desenvolvimento hoje tem duas preocupações principais: a sanidade do rebanho e o bem-estar dos animais.

 

Preocupação 1: sanidade

Se Santa Catarina responde por mais de 50% das exportações de carne suína do Brasil, este número se deve, em grande parte, às diferenciações do estado no quesito da sanidade. "Santa Catarina é um estado diferenciado. Temos a melhor sanidade porque ainda brincamos todos os animais bovinos, enquanto os outros estados brincam somente um animal por lote. Essa técnica nos permite garantir a rastreabilidade individual dos animais, que é monitorada pela CIDASC. Mas porque falamos sobre bovinos? Porque eles podem transmitir doenças para o suíno. Além disso, o nosso estado é zona livre de febre aftosa sem vacinação há 15 anos! Esses fatores fazem com que só Santa Catarina continue a exportar para o Japão, EUA e agora o Canadá", salienta Losivanio.

O status foi alcançado como fruto da forte parceria entre os produtores, a indústria, o governo, as cooperativas e as associações, que oferecem acompanhamento técnico nas propriedades em busca do melhoramento genético do rebanho e sanitário das propriedades. A aliança ainda atua como duas pontas da cadeia: a ciência e o produtor. "Outro ponto importante na busca pela sanidade é a parceria da ACCS e do Sindicato das Indústrias da Carne (Sindicarne) com a CIDASC através do Fundo de Sanidade Animal, que foi um trabalho conjunto criado por volta de 2005/2006 com um investimento alto nas barreiras sanitárias de todo estado para que nossos fiscais tivessem uma melhoria na qualidade de vida e de trabalho. Antes disso, o Fundo foi importantíssimo no abate dos animais infectados por volta dos anos 1999 e 2000, bem como na indenização de todos os proprietários para que pudessem voltar a produzir suínos", conta.

Aliado à sanidade, a melhoria genética contribui em grande parte para a expansão das atividades. Losivanio explica que ela faz toda diferença na redução da mortalidade e no ganho de peso para abate. "Cada vez mais se elimina o uso de antibióticos. Hoje trabalhamos com probióticos, que são medicações naturais. E ao contrário do que a pseudociência alega por aí, não se usa hormônios na engorda dos animais: se usa ciência com melhoramento genético e estudos sobre a dieta e conversão do alimento em peso. Quando se tem preocupação com a sanidade do rebanho e com o meio ambiente, todo resto do conjunto caminha em sintonia para melhorar até o bem-estar animal e humano nas propriedades", conlui.

 

Preocupação 2: bem-estar animal

Pensar no bem-estar animal e no meio ambiente também tem tudo a ver com o melhoramento genético, pois "o suíno consegue agregar mais peso com menor consumo de ração, está cada vez mais uniforme e mais forte contra doenças. Isso otimiza o tempo do animal dentro da propriedade, aumenta a produção e a renda do produtor e reduz o consumo de recursos ambientais para produzir cada unidade". O apontamento de Losivanio é interessante para notar também a melhoria na qualidade da carne do animal, cujo teor de gordura já não é mais objeto de discussão já que o suíno é o único animal em que podemos separar completamente a gordura da carne.

Em termos de dieta, as pesquisas apontam uma melhor conversão do animal, ou seja, melhor absorção dos nutrientes em menor tempo, com a chamada ração molhada. A alimentação com esse tipo de papa ou sopa permite que o suíno se alimente através de uma espécie de chupeta como forma de reduzir o desperdício de ração e de alavancar o ganho de peso diário.

Todo mercado da suinocultura tem uma meta: estar dentro das normas de bem-estar animal até 2026. Com cerca de 90% das grandes empresas comprometidas com a humanização do abate para adequá-lo às normas internacionais, a meta não é um sonho inalcançável. "Hoje, as indústrias fazem uma sensibilização dos animais antes do abate. Antigamente se dava um choque, mas se acredita que o suíno não sinta nada por conta dessa sensibilização antecipada", diz. Mas as pesquisas sob este foco não se resumem aos laboratórios ou à recepção do animal na indústria. Uma importante porção delas já tem foco no transporte da propriedade até a indústria. Segundo Losivanio, hoje existem empresas especializadas em criar carrocerias de transporte dentro do bem-estar do animal para que ele saia bom do produtor e chegue bom na indústria, sem que esse percurso signifique perdas para nenhuma das partes.

 

Habilitação para o Canadá e outras vitórias

Os investimentos em P&D permitiram que o rebanho catarinense ganhasse destaque no país e no cenário internacional. Com a autorização canadense, segundo dados da FIESC, o estado foi habilitado para vender para os 10 principais mercados importadores de carne suína no mundo, seja países da Ásia ou da União Europeia. O Canadá, especificamente, é o sétimo maior mercado importador do produto no mundo, com um consumo per capita de carne suína estimado por mais de 15 quilos por ano para 2022, enquanto o esperado para o Brasil gira em torno de apenas 13,1 quilos e na China ultrapassa os 25. Com a autorização, a carne suína produzida em frigoríficos de Chapecó, Videira e Joaçaba chegará aos pratos dos canadenses.

Entre janeiro e maio de 2022, as exportações de carne suína brasileira se aproximaram das 410 mil toneladas, sendo 288,7 mil toneladas delas exportadas por Santa Catarina, o que resultou em um volume de vendas de mais de 500 mil dólares. Entre os países que mais compram a carne suína catarinense estão a China, as Filipinas, o Chile, Hong Kong, Japão, Argentina, Estados Unidos, Rússia, Singapura e Geórgia.

 

Outras ações da ACCS

A ACCS criou a primeira Central de Sêmen de Concórdia em 1976 como forma de dar sequência aos trabalhos ligados ao melhoramento genético. Também foi dela a criação da primeira Central de Sêmen Suíno dentro do bem-estar animal do país em 2016.

Entre os investimentos em marketing, se destacam aqueles que ressaltam a qualidade da carne e o trabalho diferenciado da produção que distingue a suinocultura catarinense atual da produção de porcos de antigamente. Além disso, desde 2013, a Associação mantém um estúdio de rádio para produzir uma programação semanal destinada a 26 estações de rádio do estado como forma de divulgar novidades da área da suinocultura.

Ao trabalhar diretamente com os produtores, a ACCS trabalhou ativamente na adequação das propriedades para atender a legislação ambiental (a questão dos TACs) em 2003, dando prazos de adequação e assessoria na produção. Já com a formalização da Lei da Integração, de 2016, lutou pela melhoria da qualidade de vida dos produtores integrados e pelo diálogo transparente com a indústria. Assim, a cada seis meses, promove uma reunião entre produtores e as indústrias através da Comissão de Acompanhamento e Desenvolvimento da Suinocultura para apresentar os custos de produção e discutir o percentual de reajuste que os produtores devem ter para continuar na atividade.


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